14 de abril de 2010

guarde-se

- Não senti nada, querida. Nada.

Ela me perguntava sobre o peso na consciência, sobre o remorso. Falava dum jeito duro, e contabilizava os gastos com os três anos que foram perdidos.
Eram culpas para lá e para cá; tudo em cima, e eu aqui embaixo.
Gritou, tomou tudo e em menos de 48 horas, as devolveu.
Pragas foram geradas e amores me foram jurados. "É tudo para o teu bem", ela dizia com doces na mão.

- Não senti ainda nada por vocês. Tenho sentido pelos meus ouvidos, pelos meus amigos e por minha alma. Mas, não, vocês ainda não. Tá dando para entender ?

Sei que a boca ficou aberta e que mais uma vez, os julgamentos não eram positivos. Pensei em pedir perdão pelas útimas palavras, mas vi que não seriam aceitas. O que era necessário para ela, deparava-se exatamente com o inverso do que eu poderia dizer ou pedir. Deveria eu, sentir tudo o que foi questionado no início, e como eu não senti, resolvi calar.

Olhei nos olhos, pedi com clemência para que pudesse acalmar o coração.
Não senti nada. Só pude pensar como agora: acalma que vai passar, acalma que eu ainda vou sentir. Acalme-se por você, já que eu estou calma e não sinto o hoje.

- Me passa a colher ?, assim falei.

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